A Campanha da Fraternidade 2017 e as questões que envolvem o encarceramento em massa no Brasil

Por: Êrika Fernandes Cruvinel

A Campanha da Fraternidade é realizada todos os anos pela Igreja Católica no Brasil e envolve as famílias, os grupos cristãos e as comunidades eclesiais, em diversas ações pastorais nos quatro cantos do pais. A Campanha é um empenho de todos em favor da solidariedade e fraternidade, sempre abordando temas da atualidade, propõe a cada ano uma transformação coletiva e comunitária em diversos campos da sociedade, no econômico, político, cultural, social,ambiental e religioso. A cada ano, durante a Campanha da Fraternidade as pessoas e as instituições são convidadas a refletirem sobre um tema e um lema, empreendendo ações que impulsionem transformações na sociedade.Os temas e os lemas das Campanhas da Fraternidades são definidos pelos bispos do Conselho Episcopal Pastoral (Consep) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).Estamos chegando ao fim do ano e convidamos você a refletir sobre o tema da Campanha da Fraternidade de 2017“Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”e o lema“Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15) em sua relação com o encarceramento no Brasil.

De início um esclarecimento necessário sobre o que são e quais são os biomas brasileiros. Biomas são associações relativamente homogêneas de plantas, animais e outros seres vivos, incluindo o homem, que vivem em determinadas regiões em equilíbrio entre si e com o meio físico, que se desenvolveram ao longo do tempo em resposta a condições climáticas relativamente uniformes. No Brasil o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) emprega o termo para referir-se às grandes regiões bioclimáticas do país (Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal). Cada bioma tem as suas especificidades e riquezas naturais, biodiversidade, reservas minerais, florestais e hídricas. Nos biomas vivem povos e comunidades tradicionais com identidades, saberes e manifestações sociais e religiosas próprias, e que mantém com a natureza uma relação sagrada, de respeito, gratidão e cumplicidade.

 

Superado o entendimento sobre o que são biomas, ousamos questionar: onde a Campanha da Fraternidade 2017 encontra com as questões que envolvem o encarceramento em massa no Brasil? Para tentar elucidar a questão posta, analisemos dois fatos que marcaram a criação do Brasil com a chegada dos Portugueses colonizadores. O primeiro, a apropriação das terras e dos recursos naturais haja vista a exploração do solo para o monocultivo da cana-de-açúcar e o extermínio do pau-brasil, espécie típica da Mata Atlântica. O segundo, o encarceramento e escravização dos irmãos negros vindos da África. Sendo o segundo fator imprescindível à existência do primeiro.

Passados exatos 517 anos quase nada mudou, continuamos nos apropriando indevidamente das terras e dos recursos naturais, e o encarceramento de pessoas (em sua grande maioria negras) submetidas à punições e castigos medievais manteve-se como nos tempos do Brasil Colônia. A cultura do ter em detrimento da cultura do ser, a cultura da apropriação e da dominação,fomentaram e fomentam o encarceramento em massa no nosso país. Hoje, é a ganância capitalista e a busca desenfreada pelo lucro e acumulação de riquezas, retroalimentadas pela desigualdade social,falta de acesso à educação, à cultura, à saúde, à moradia, ao lazer eao saneamento básicoque promovem o tráfico, a violência e a criminalização da pobreza, são as maiores causas do encarceramento em massa no Brasil.

A Campanha da Fraternidade 2017 se contrapõe a tal cenário. Para cada um dos biomas brasileiros, o texto base da CNBB para a Campanha da Fraternidade 2017 considera para fins de ação a sua localização, características naturais (biodiversidade), os povos originários e a cultura (sociobiodiversidade), as belezas, as fragilidades e os desafios, a sua contextualização política e as contribuição eclesial. Dessa forma a Igreja Católica Brasileira em ação busca despertar o espírito comunitário e cristão no povo de Deus, comprometendo-se, em particular, com o zelo pelo bem comum. Em seu hino, a Campanha da Fraternidade 2017, nos conclama a louvar o Senhor pela mãe Terra que nos acolhe, nos alegra e nos dá o pão (cf. LS, n.1) e a contemplá-la com reverência e não com olhar de ganância, ambição, consumismo, desperdício ou indiferença, fazendo crescer entre os homens uma nova ecologia onde o Criador faz da Terra o seu jardim. Dessa forma, quando o amor verdadeiro florescer no jardim do Criador não haverá lugar para o cárcere. Se queremos um mundo mais igual em que todos são livres lembremos que nós somos os jardineiros do Senhor e as nossas atitudes as sementes que farão germinar o amor libertador. Em fevereiro próximo a Campanha da Fraternidade 2018 será lançada, mas o tema “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”e o lema “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15) deverão permanecer vivos em cada um de nós, dia após dia, até que cada bioma esteja livre da ganância dos homens, até que não haja nenhum irmão ou irmã no cárcere, até que o amor do Criador germine em todos os corações.